Alergia alimentar x leite de vaca

Alergia alimentar x leite de vaca

O leite de vaca é a principal causa de alergia alimentar nos primeiros meses de vida e a falta de tratamento adequado pode trazer sérias consequências para o desenvolvimento da criança. Qualquer contato com a proteína do leite de vaca pode provocar reações alérgicas. Por isso, as mães precisam saber identificar a proteína do leite de vaca nos rótulos dos alimentos.

A APLV – alergia à proteína do leite de vaca – é responsável por 77% dos casos de alergia alimentar, principalmente no primeiro ano de vida. Trata-se de uma reação do sistema imunológico às proteínas do leite que provoca problemas gastrintestinais (diarreia, constipação, náuseas e vômitos), respiratórios (asma, rinite e chiado no peito) e na pele (manchas, lesões nas dobras e coceiras). Após o diagnóstico de alergia, a mãe que amamenta deve seguir uma dieta totalmente livre de proteína do leite de vaca, para que o leite materno não provoque reações no bebê. Se a criança alérgica não é amamentada, é preciso excluir a proteína do leite da sua alimentação, introduzindo, então, dietas específicas com orientação médica.

“A mãe que tem um filho com APLV precisa cuidar da própria alimentação caso esteja amamentando e, além de prestar muita atenção ao rótulo dos produtos que consome, tem que dar prioridade para alimentos preparados em casa. Muitas vezes, alimentos industrializados que não são derivados de leite podem conter traços da proteína que causa alergia por conta do processo de fabricação. Por isso, é tão importante que as mães saibam identificar esse componente nos rótulos dos alimentos”, afirma o Dr. Ary Lopes Cardoso.

 

Como saber se um alimento contém proteína do leite de vaca?

Um estudo brasileiro(1) mostrou que, mesmo após serem orientados pelo médico, menos de 25% dos pais de crianças com APLV são capazes de reconhecer nos rótulos dos alimentos os ingredientes que podem causar as reações alérgicas. “Esse índice é baixo porque além dos ingredientes facilmente associados ao leite – como leite condensado ou nata – existem outros cujos nomes são muito técnicos. Em outros países, como os Estados Unidos, os pais também têm muita dificuldade para detectar os componentes proibidos para os alérgicos à proteína do leite de vaca. “É importante que os rótulos sejam mais esclarecedores permitindo o fácil reconhecimento das proteínas do leite de vaca na composição do produto. O não reconhecimento dos ingredientes nos rótulos pode levar a falhas no tratamento. É frequente esse tipo de falha que prejudica a eficácia do tratamento de exclusão do leite de vaca, podendo ocasionar  o retorno dos sintomas na criança com APLV ”, explica o Dr. Mauro Batista de Morais, um dos orientadores  da pesquisa.

Por isso, antes de comprar qualquer tipo de alimento industrializado, é importante conferir sua composição. Para saber se o produto contém a proteína do leite de vaca ou traços dela, deve ser verificado se algum desses ingredientes ou expressões aparece no rótulo: leite, creme de leite, caseinato, iogurte, nata, lactose (açúcar do leite), leite condensado, coalhada, lactoalbumina, leite evaporado, queijo, caseína, leite em pó, leite maltado, manteiga ou margarina, lácteo (a) e Lactoglobulina.

Alguns alimentos processados como hambúrgueres, kibes, salames, almôndegas, salsichas, carnes empanadas, entre outros, também podem conter resíduos de leite por conta do processo de fabricação. Durante a dieta de exclusão, ficam vetados produtos de confeitaria e panificação como biscoitos, bolos, tortas e doces que levam leite em suas receitas. Sopas e pratos prontos também podem conter leite, queijo, purês, manteiga ou margarina. 

1 – Weber TK, Speridião PG, Sdepanian VL, Faguntes Neto U, de Morais MB. The performance of parents of children receiving cow’s milk free diets at identification of commercial food products with and without cow’s milk. J Pediatr (Rio J). 2007;83(5):459-464.

 

Diagnóstico e tratamento evita as consequências da APLV

Não diagnosticar e tratar a APLV pode levar o bebê à desnutrição, anemia, além do risco de reação anafilática. Entretanto, o diagnóstico é complexo, pois os sintomas dessa alergia alimentar são similares aos de outras doenças e não existem exames laboratoriais específicos para detectar o problema. Para confirmar e tratar a alergia, é necessário que a criança faça uma dieta de exclusão total de proteína do leite de vaca.

“O diagnóstico da APLV depende totalmente do médico que, ao suspeitar do problema, prescreve a dieta de exclusão total de leite de vaca para a mãe que amamenta ou para o bebê, caso ele já não seja mais amamentado. A dieta especial da mãe deve ser rigorosa e completa do ponto de vista nutricional. No caso do bebê que faz dieta de exclusão, o médico pode indicar o uso de dieta não alergênica específica para lactentes. Isso é fundamental para garantir que as necessidades nutricionais da criança sejam plenamente atendidas”, explica o Dr. Ary Lopes Cardoso.

“Outro estudo (2) da Unifesp mostrou que frequentemente as dietas de exclusão do leite de vaca realizadas em São Paulo apresentam déficit de nutrientes – especialmente cálcio – e de energia. Este fato pode piorar o estado nutricional dos pacientes. Apesar do estudo ter sido realizado em São Paulo, é bem provável que as dietas sejam inapropriadas em outras regiões do Brasil”, afirma o médico.

O diagnóstico de APLV fica determinado quando, após um período de dieta de exclusão – que dura de 8 a 12 semanas – e a melhora dos sintomas, o bebê é novamente exposto ao leite de vaca. “Esse procedimento é chamado teste de provocação e deve acontecer sob supervisão do pediatra. Caso os sintomas reapareçam, fica confirmada a APLV. A partir daí é preciso manter a mesma dieta livre de proteína do leite de vaca. Normalmente, até completar um ano de idade, a criança se torna naturalmente tolerante à proteína e o problema desaparece, mas nos casos mais severos a alergia pode perdurar até por volta dos três anos”, comenta o Dr. Ary Lopes Cardoso.

Segundo especialistas, a principal causa de alergia à proteína do leite de vaca é a interrupção precoce do aleitamento materno ou o uso de produtos à base de leite de vaca para complementar a alimentação do bebê. Se o aleitamento materno for estimulado como alimento exclusivo até os seis meses de idade, como recomenda a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Organização Mundial de Saude, este problema pode ser evitado.

2 – Medeiros LC, Speridião PG, Sdepanian VL, Fagundes-Neto U, Morais MB. Ingestão de nutrientes e estado nutricional de crianças em dieta isenta de leite de vaca e derivados. J Pediatr (Rio J) 2004;80:363-370.

 

Será que o meu filho tem alergia ao leite de vaca?

Observe se a criança apresenta algum desses sintomas com frequência, pois através deles, o pediatra pode suspeitar de APLV. Somente o pediatra pode fazer o diagnóstico correto e indicar o tratamento adequado.

* Diarreia persistente com ou sem sangue, afastando-se causas infecciosas;

* Vômitos frequentes e/ou regurgitações que não respondem aos tratamentos antirrefluxo;

* Déficit de crescimento e desenvolvimento;

* Dermatite (vermelhidão na pele), urticária e coceiras envolvendo principalmente as dobras;

* Choro, cólicas e irritabilidade;

* Chiado, tosse e desconforto respiratório que não respondem aos tratamentos medicamentosos habituais;

* Prisão de ventre ou constipação (intestino preso) que não responde aos tratamentos habituais e correção de dieta alimentar.

 

Referências:

Host A. Frequency of cow’s Milk allergy in childhood. Ann Allergy Asthma Immunolol 2002;89:33-37;

Vieira MC, Toporovski M, Morais MB, Spolidoro JV, et al. Cow´s Milk Allergy in Children: A Survey on Its Main Features in Brazil;

Journal of Parenteral and Enteral Nutrition (JPEN). 2005 Jan; 29(1):S27.

 

Fonte

Ary Lopes Cardoso – Pediatra e nutrólogo, chefe do Grupo de Suporte Nutricional do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP.

Mauro Batista de Morais – Médico, professor e chefe da Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica da Unifesp.

 



Outros Artigos

Astaxantina: alguns a chamam de o melhor antioxidante do mundo – protege os olhos, o cérebro e previ

Astaxantina: alguns a chamam de o melhor antioxidante do mundo – protege os olhos, o cérebro e previne as rugas

Ler mais

Magnésio Tipos de...

Tipos de mágnésio

Ler mais

KEFIR Os Inúmeros Benefícios do Probiótico

Os Inúmeros Benefícios do Probiótico Kefir    

Ler mais

SiliciuMax

SiliciuMax®

Ler mais

Vitaminas, sua falta, causam Depressão e Transtornos de Humor

Carências Nutricionais que Causam Depressão e Transtornos de Humor  

Ler mais

Vitamina D e depressão

A deficiência de vitamina D e a depressão  

Ler mais