Efeito placebo, uma sensação que cura e conforta.



Medicamentos, exames e procedimentos sofisticados são a base da medicina curativa. 

Mas existe um elemento tão importante quanto estes no processo de melhoria do paciente: simplesmente saber que está sendo cuidado. Diversas pesquisas conseguiram comprovar o chamado efeito placebo, que consiste na sensação de alívio dos sintomas de determinada doença, mesmo que a pessoa não tome remédios verdadeiros. Ainda que, do ponto de vista fisiológico, o organismo não seja beneficiado com o tratamento, as “pílulas de farinha” são capazes de agir sobre o bem-estar do paciente com tanta eficácia quanto as drogas farmacêuticas.

O placebo é uma importante ferramenta na pesquisa científica. Geralmente, nos estudos sobre novos remédios, os voluntários são divididos em grupos, sendo que parte recebe o verdadeiro tratamento e outra parte toma falsos medicamentos. O paciente pode ou não saber em qual categoria foi incluído, assim como o médico. Quando nenhum dos dois tem conhecimento sobre quem está usando a droga real, o estudo é chamado duplo-cego. No fim da pesquisa, é possível avaliar se o remédio trouxe efeitos positivos, comparando o estado de saúde dos voluntários que tomaram o medicamento com o daqueles que ficaram com o placebo. “Se o placebo não for utilizado, é difícil saber se os resultados de um estudo estão relacionados ao efeito da droga ou à história natural da doença”, explica ao Correio Michael Wechsler, pesquisador da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos.

O primeiro ensaio clínico controlado com placebo foi realizado em 1799 pelo médico britânico John Haygarth. O objetivo do pesquisador era testar um equipamento médico chamado trator de Perkins. Tratava-se de um objeto pontiagudo de metal que teria habilidades de “apagar” a doença do organismo. Cético, Haygarth resolveu investigar a eficácia do equipamento, comparando seu uso ao de objetos idênticos, mas de madeira. “Em um grau que jamais suspeitamos, verificamos quão poderosa é a influência da imaginação sobre as doenças”, concluiu o médico, em um livro publicado em seguida.

De acordo com o pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Marcus Zulian Teixeira, que escreveu um artigo sobre o tema, publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, desde aquela época, “o efeito placebo já trazia benefícios para a ciência médica, demonstrando ‘a maravilhosa e poderosa influência das paixões da mente sobre o estado e os distúrbios do corpo’”. “Com a introdução dos ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e placebo-controlados, os relatos de mudanças clínicas significativas nos grupos do placebo conduziram à difusão de que a intervenção pode apresentar efeitos poderosos em diversas condições clínicas”, relata o autor do artigo Bases psiconeurofisiológicas do fenômeno placebo-nocebo: evidências científicas que valorizam a humanização da relação médico-paciente.

Ação sobre a asma

É a essa relação de confiança e empatia entre doentes e médicos que se dedica o trabalho de Ted Kaptchuk, cientista e professor associado da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, autor de diversos livros e artigos. Recentemente, Kaptchuk publicou mais um trabalho sobre o efeito placebo, na revista especializada New England Journal of Medicine. No estudo, o cientista e sua equipe, da qual faz parte Michael Wechsler, investigaram a resposta ao placebo de pacientes com asma. O teste, duplo-cego, foi realizado com 46 pessoas divididas aleatoriamente em grupos. Algumas usaram inaladores com remédio, outras, inaladores com falso medicamento, enquanto que o restante fez acupuntura ou não recebeu nenhum tratamento.

Ao longo da pesquisa, os voluntários fizeram 12 testes para verificar a capacidade pulmonar. O exame revelou que, entre aqueles que inalaram o medicamento, o ganho respiratório real foi de 20%. Nos grupos do placebo, o índice foi de apenas 7%. Mas, quando consideraram o relato dos pacientes sobre a percepção que eles tinham sobre a melhoria de seu estado de saúde, os pesquisadores descobriram que não houve diferença entre os que tomaram o remédio e os usuários de placebo: 50% dos voluntários submetidos a alguma intervenção, fosse ela real ou fictícia, disseram que se sentiam melhor. Já os que não receberam nem remédio nem tratamento placebo, o percentual caiu mais da metade.

“Aparentemente, o placebo de fato melhora os sintomas, apesar de não sabermos exatamente o motivo. Isso mostra a importância de um tratamento, ainda que, objetivamente, o placebo não forneça a cura. Por exemplo, o placebo pode não curar o câncer, mas pode ajudar o paciente em relação à percepção de como ele se sente”, diz Wechsler. “No nosso artigo recente, verificamos que só o fato de saber que estava sendo tratado já trazia um grande impacto ao paciente, tão grande quanto tomar uma medicação verdadeira”, completa Kaptchuk (leia entrevista). Ambos os cientistas afirmam que testes sobre o efeito placebo comprovam a importância da confiança e da empatia entre médico e paciente para que este se sinta melhor.

Não se trata apenas de pensamento positivo, como muitas pessoas podem achar. Em um outro estudo conduzido por Kaptchuk, o cientista resolveu investigar se, mesmo sabendo que tomavam “pílulas de farinha”, os pacientes sentiam alguma melhora. Oitenta pessoas com síndrome do intestino irritável foram divididas em dois grupos: o de controle não recebeu qualquer tratamento, enquanto o outro tomou comprimidos de açúcar duas vezes por dia, sabendo que não havia qualquer fármaco na composição. “Até a embalagem continha a palavra ‘placebo’. Dissemos aos pacientes que eles não tinham de acreditar no efeito do placebo, mas precisavam apenas tomar as pílulas”, recorda Kaptchuk.

Durante três semanas, os pacientes foram monitorados. Ao final dos testes, 59% dos que ingeriram o comprimido de açúcar relataram alívio nos sintomas, enquanto que o índice do grupo sem tratamento ficou em 35%. “Não achei que fosse funcionar”, conta Anthony Lembo, professor de Harvard que integrou a equipe de pesquisadores. “Me senti estranho pedindo para os pacientes tomarem placebo. Mas, para minha surpresa, parece que isso funcionou para muitos deles”, confessa.

Mecanismos psicológicos

Embora diversas pesquisas já tenham comprovado o efeito placebo, os cientistas ainda estão atrás dos mecanismos cerebrais envolvidos no processo. “Essa é uma área em investigação e estamos muito interessados em aprender mais a respeito. Ainda se sabe pouco sobre a ciência do efeito placebo”, diz o pesquisador de Harvard Michael Wechsler. 

De acordo com o cientista Ted Kaptchuk, diversos neurotransmissores estão envolvidos, incluindo endorfina e dopamina. “Além disso, sabemos que há áreas específicas do cérebro que modulam emoções e sensações, como o córtex cingulado anterior rostral, relacionados ao placebo”, conta.

Em um artigo publicado na revista médica Lancet, Kaptchuk e sua equipe reviram diversas pesquisas sobre o tema e concluíram que, do ponto de vista fisiológico, são muitos os mecanismos que contribuem para o efeito placebo. Expectativa, condicionamento, aprendizado, memória, motivação, recompensa e redução da ansiedade são alguns deles. Dois, de acordo com o artigo, parecem ser os mais importantes: a expectativa e o condicionamento. Enquanto a esperança de melhora aciona as áreas do cérebro relacionadas ao desejo e às emoções, o fato de o paciente tomar todos os dias o falso medicamento condiciona a mente a “acreditar” que algo está acontecendo. Isso, segundo Kaptchuk, inconscientemente, desencadeia respostas imunológicas e hormonais (veja quadro).

Três perguntas para Ted Kaptchuk, cientista da Universidade de Harvard

O que os sistemas de saúde podem aprender com o efeito placebo?

Eu acho que os sistemas de saúde usam efeitos “não específicos”do tipo placebo o tempo todo. O que a pesquisa sobre o placebo faz é permitir que os médicos vejam a sua magnitude e importância para os pacientes. Ela demonstra que, além de procedimentos e medicações, oferecer cuidado às pessoas é um componente crítico para a melhoria do paciente. Também há experimentos que sugerem que, mesmo quando o paciente sabe que está tomando placebo, o falso medicamento continua fazendo efeito. Acho que estamos falando sobre reconhecer que há mais dentro de um sistema de saúde do que simplesmente passar remédios e exames. No nosso artigo recente, verificamos que só o fato de saber que estava sendo tratado já trazia um grande impacto ao paciente, tão grande quanto tomar uma medicação verdadeira.

Quando o paciente descobre que seu tratamento é placebo, as melhorias podem sofrer impactos negativos?

Se o paciente acha que o placebo é uma coisa idiota, falsa e fraudulenta, ele vai experimentar regressões em seu quadro. Mas se os pesquisadores explicarem que esses efeitos são, na verdade, o poder da autocura, e explicar isso antes de o paciente receber o placebo, há evidências de que o paciente não sofre regressão.

Considerando que o efeito placebo de fato existe, isso quer dizer que pensamentos positivos podem curar?

O efeito placebo inclui pensamentos positivos, mas também inclui a relação entre médico e paciente; a confiança naquele diploma pregado na parede, a empatia entre ambos, a compaixão e a persuasão do médico. Além disso, inclui tomar as pílulas falsas. Por isso, acho que é algo maior do que apenas a força do pensamento.

Cadeia de aplicações

O método, de acordo com cada tipo de doença

Condição - Mecanismo

Dor - Ativação de opioides endógenos e da dopamina

Parkinson - Ativação da dopamina e mudança na atividade dos neurônios no gânglio basal e no tálamo

Depressão - Mudanças na atividade elétrica e metabólica em diferentes regiões cerebrais
Ansiedade - Mudanças na atividade dos córtices cingulado anterior e orbitofrontal, alteração nos níveis de dopamina

Dependência química - Mudanças na atividade metabólica de diferentes regiões cerebrais
Doenças cardiovasculares - Redução da atividade da adrenalina no coração
Doenças respiratórias - Condicionamento dos receptores opioides nos centros respiratórios do organismo

Sistema imunológico - Condicionamento de alguns mediadores do sistema imunológico, como linfócitos

Sistema endócrino - Condicionamento de hormônios como cortisol
Performance física - Ativação de opioides endógenos e melhoria do trabalho muscular
Alzheimer - Melhor controle da atividade do córtex pré-frontal

Fonte: Biological, clinical, and ethical advances of placebo effects, artigo de Damien G. Finniss, Ted J. Kaptchuk, Franklin Miller e Fabrizio Benedetti



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