Emoções ou visão podem aumentar ou diminuir a resistência a dor



A dor é psicológica. Por mais absurda que possa parecer, a afirmação tem seu fundo de verdade, afirmam especialistas britânicos. Segundo estudo desenvolvido no Instituto de Neurociência Cognitiva da Universidade de Londres, a resistência a um estímulo doloroso pode aumentar ou diminuir dependendo das circunstâncias. E mais: o simples fato de olhar para o próprio corpo pode ajudar alguém a suportar melhor uma situação dolorosa. “Trata-se de uma experiência muito complexa e subjetiva. Fatores como emoções, motivação e expectativa podem mudar os níveis de dor”, explica uma das autoras do estudo, Flavia Mancini, em entrevista ao Correio. 

Durante a pesquisa, publicada recentemente na revista médica Psychological Science, um grupo de médicos testou a resistência de 18 pessoas ao calor. Uma sonda cuja temperatura aumentava gradualmente foi posicionada sobre a mão esquerda dos participantes, colocada sobre uma mesa. Quando começavam a sentir dor, eles pisavam em um pedal que desligava a sonda e fornecia aos cientistas a informação de qual temperatura cada voluntário tinha suportado. 

Em seguida, o médicos colocaram uma estrutura espelhada impedindo que os participantes vissem sua mão esquerda, a que recebia o calor. Quando eles tentavam enxergá-la, viam, refletida no espelho, sua mão direita invertida, dando a impressão de que estavam observando a parte do corpo aquecida. Nessa situação, as pessoas suportavam, em média, uma temperatura 3ºC mais alta que a que tinham aguentado da primeira vez. Ou seja, só de olharem para a mão que aparentemente recebia o estímulo doloroso, os voluntários se tornaram mais resistentes. 

Em outro momento, os cientistas usaram espelhos côncavos e convexos, fazendo com que a imagem da mão parecesse, respectivamente, maior e menor. Quando viam a “falsa” mão esquerda ampliada, os participantes suportavam ainda mais o calor, permitindo que a temperatura da sonda ficasse 4ºC maior que a do primeiro experimento. Com uma imagem reduzida, no entanto, eles aguentavam menos dor. 

“Nosso estudo sugere a importância de fatores de percepção que não carregam nenhum conteúdo emocional. Em palavras simples, se evitarmos olhar para a fonte da dor (a sonda que emite o calor ou uma agulha), mas olharmos para nosso corpo (a imagem da mão direita refletida, dando a impressão de que ela é a mão que recebe o estímulo), vamos senti-la em menor intensidade. O que você vê influencia o que você sente”, resume Flavia. Segundo ela, isso ocorre porque a imagem que o cérebro forma do corpo tem um forte efeito na experiência das sensações táteis. “Isso indica uma interação interessante entre as partes que processam a visão do corpo e a dor. Por isso, sentimos menos dor quando vemos nossa mão maior do que é, e mais dor quando a vemos menor.” 

Estratégias 
Como saber, no entanto, qual é a melhor maneira de agir na hora de tomar uma injeção ou ter o braço espetado para a coleta de sangue? O estudo não fornece uma resposta única que sirva para todas as pessoas, mas mostra que diferentes estratégias podem realmente diminuir a sensação incômoda. Segundo Flavia, se não há traumas ou fatores emocionais fortes ligados ao estímulo doloroso, olhar para o local onde a dor ocorre pode ser eficiente. É o que prefere fazer a advogada Vívian Mattos, 30 anos. Ela conta que, desde criança, costuma olhar para a parte do seu corpo que vai, por exemplo, receber uma injeção. “A gente não tem controle nessas situações, então acho que olhar é o que posso fazer para ter um mínimo de controle”, explica. Para ela, o fato de estar preparada para o momento da agulhada também ajuda. “Quando você não olha, a dor vem de surpresa. Mas se você encara, fica pronta para o que vai acontecer. A sensação acaba sendo menos incômoda”, ressalta. 

Já a decoradora Jacqueline Bittencourt, 24 anos, adota a estratégia oposta. Ela prefere não olhar quando está tirando sangue, por exemplo. “Acho melhor virar o rosto e não ver coisas que me fazem sentir agonia”, admite. A estratégia da jovem é se distrair. “Olho para o lado ou fico conversando, se tiver alguém comigo. Prefiro fingir que a situação não está acontecendo”, descreve. 

Jacqueline comenta que passou a agir dessa maneira ainda na infância. “Quando eu era criança, tive uma pneumonia bem severa, o que me fez ficar internada por mais de 20 dias. Eu tinha de ficar com soro o tempo inteiro. De tanto ser furada, eu fiquei com a mão, o pulso e as dobras dos braços cheios de manchas roxas. Então, começaram a me furar nos pés e nas pernas”, recorda a decoradora. Para ela, essa experiência é a origem de seu trauma com agulhas. Ela tenta não passar o medo que sente para a filha, Alice, 3 anos. “Eu tenho dificuldade de ver a Alice sendo picada, mas tento não demonstrar para ela.” Aparentemente, a tática tem dado certo. “Ela é bem mais corajosa do que eu na hora de tomar vacina”, afirma. 

Cultura 
Para a cientista Flavia Mancini, o estudo pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos contra a dor. Segundo ela, as abordagens normalmente focam apenas a fonte do desconforto. A descoberta do grupo de pesquisadores britânicos indica, porém, que outros aspectos poderiam ser levados em conta na hora de buscar amenizar o sofrimento de pacientes. 

O professor de neurofisiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Márcio Flávio Dutra Moraes lembra que a pesquisa britânica tem relação com a chamada teoria do portão para o controle da dor. Desenvolvida nos anos 1960 pelos pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts Ronald Melzack e Patrick Wall, essa teoria mostra que o estímulo tátil chega à medula e segue para o cérebro antes do estímulo doloroso em si. Assim, se a pessoa se prepara previamente para sentir dor, a mensagem de antecipação enviada ao cérebro chega mais rápido do que a sensação incômoda, agindo como um portão e “filtrando” a reação do organismo a ela. Isso significa que fatores culturais, cognitivos, sociais e psicológicos alteram a percepção da dor. 

Moraes comenta que prestar atenção à dor pode ser útil porque a pessoa envia uma mensagem ao cérebro para se preparar para o estímulo que está por vir, aumentando assim a resistência do organismo. “Mas a preparação prévia também pode ser negativa. Se a pessoa tensionar os músculos quando for tomar uma injeção subcutânea, a dor pode ser maior”, pondera. 

Interferência 
Pesquisa divulgada recentemente na revista especializada Science Translational Medicine respalda a teoria de Melzack e Wall. No estudo, 22 voluntários deveriam qualificar o grau da dor sentida quando tinham seus pés aquecidos, posicionando a sensação em uma escala de 0 a 100. A nota média dada pelo grupo para o desconforto foi 66. Ao receberem uma dose de analgésico sem saber do que se tratava a substância, eles disseram que a dor havia caído, em média, para o nível 55. Porém, quando foram avisados de que tinham recebido uma dose de analgésico, diziam que a dor merecia uma nota bem mais baixa: 39. Segundo os autores, o experimento comprovou a interferência de fatores psicológicos na resistência do organismo à dor.
Fonte: CORREIO BRASILIENSE – DF



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